Diários Cinéfilos

A Arte de Se Ficar Nu por Francisco Russo

11/06/2010 5

Texto de Rodrigo Fernandes

Durante duas semanas inteiras fiquei nu. Nuzinho, em pelo, no meio de um monte de gente. Apresentei aqui, nestas terras do Distrito Federal, minha humilde oficina e quem foi me viu peladão em toda minha radiante glória. Antes que as moçoilas que não estiveram lá se martirizem desesperadas pela oportunidade perdida, e se joguem de peito nas pontas das facas ou tomem formicida com guaraná ou ainda coloquem vidro moído no caldo de feijão, peço calma. Sou sujeito pudico. O que coloquei para fora e balancei na frente de todos não foi nada além das partes pudendas da crítica cinematográfica. Tal qual um Mister M revelei todos os segredos por trás dessa misteriosa ciência oculta de se julgar um filme. Só espero que, tal qual aqueles ilusionistas que se sentiram traídos pelo infame mágico mascarado, algum crítico enfurecido não esteja agora azeitando um rifle pensando em minha pessoinha. Toc, toc, toc.

Gosto desses exercícios. Sair de trás da telinha do computador e estar com as pessoas – estudantes, donas de casa, intelectuais, desocupados, cinéfilos e todo tipo de gente – falando disso que a gente faz tão solitariamente no recanto do lar. A galera é sempre muito interessada. Quando explico, didaticamente, o que é uma crítica, qual sua função, sua estrutura e etc. não raro a audiência fica surpresa. Ora bolas, a gente sempre pensou que esse negócio de crítica era só sentar e escrever o que achou do filme... Mas para que afinal serve a crítica? Com se faz? Quais são os critérios? É o que a maioria pergunta ou pensa em perguntar. De qualquer forma, a gente responde. É óbvio que nem todo mundo concorda com os argumentos, mesmo que eles venham de gente gabaritada, muitos deles nascidos das mentes dos especialistas gringos que, todo mundo sabe, são muito mais especializados que os nossos, não tem nem comparação.

Porém, ao discordar, o incréu está justamente confirmando o primeiríssimo mandamento da crítica cinematográfica: crítica não deve ser imposição de ideias, verdades, certezas nem nada disso. Crítica não me dá o que devo pensar, mas me estimula para que eu, miolo mole, pense. Isso é deveras óbvio. É claro que é. Mas enxergar o óbvio é tarefa das mais complicadas, não é para qualquer um. Basta pensar nesses longevos e exemplares senhores da nossa política verde-amarela. Homens sábios, venturosos e experimentados que nunca equacionam as questões mais elementares da vida e continuam – Ah! Eternos aprendizes! – buscando em sucessivas reeleições aprender a arte de dar para o povo, ignorante de suas próprias necessidades, só o que é melhor para ele.

Voltando à vaca fria, não deixa de ser curioso que todo mundo parece desconhecer que a crítica, hoje, aqui no Pindorama Brasílico (no resto do mundo também, mas menos um pouco) passa por uma crise miserável e que o crítico profissional, antes um sujeito questionador e de opinião, virou um profissional de marketing. Um vendedor de liquidificadores. Mas o cinema não é um produto, tio? Ora se é, sempre foi. Mas não só um produto, é um produto que leva à reflexão. Ou deveria levar. Com mil diabos! Essa é uma discussão inesgotável e estimulante.

É bom mostrar as vergonhas. Mostrar que o crítico não é nenhum gênio encastelado numa torre de sabedoria e nem um palerma frustrado que vive de falar mal do trabalho alheio. O crítico é só um chato necessário. Nem mais nem menos. Se eu consegui provar isso, a missão foi cumprida. Não posso querer mais nada da vida.


*  *  *


Para quem perdeu a primeira edição da já ultracitada Oficina de Percepção e Crítica Cinematográfica, não se desesperem, nem tudo está perdido. Atendendo a pedidos preparei um repeteco. As informações estão aí embaixo. Se for de paz, pode entrar.

Local: Casa D’Itália – EQS 208/209, s/n, lote A, Brasília, DF.

Inscrições gratuitas no local. A efetivação da matrícula está condicionada à disponibilidade de vagas e ao final do curso serão emitidos certificados de participação.

Datas: 14, 16, 21, 28 e 30 de Junho de 2010.

Horário das aulas: 18h30 às 20h30.

Informações: (61) 3443.1747, 3443.0606, 8105.2736.

Comentários

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Humberto Gonzaga Ramos em 12/06/2010

Olá Rodrigo. Gostaria de saber se vc pretende trazer essa oficina para São Paulo. Abraços.

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Rodrigo Fernandes em 13/06/2010

Humberto, por enquanto não há planos para levar a oficina para São Paulo não. Por hora, é um bônus só para o Distrito Federal mesmo. Bração.

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Gabriela Ferreira em 12/06/2010

As pessoas têm idéias fixas sobre tudo, não é mesmo? Malditas idéias fixas!, diria o finado Brás Cubas. Quem dera as pessoas, como profissionais mas como pessoas também, se despissem com mais frequência e com mais naturalidade. Talvez se se mostrassem assim, como todos são e devem ser - nada mais que pessoas e profissionais -, o céu fosse mais azul, os passarinhos cantassem mais felizes... Sim, sim, talvez a vida fosse mais simples e mais fácil de viver. Exagero meu? Vai saber... Acho que os grandes problemas estão nas coisas mais elementares, no óbvio, comentado por vc, que inflizmente é porco valorizado hoje.
Parabéns por estar contribuindo no desenvolvimento do senso crítico das pessoas, Rodrigo, sendo simplesmente o profissional crítico que é; e por ajudar a desconstruir algumas más idéias fixas por aí.

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BIANCA GARCIA em 14/06/2010

Meu querido, o que seria a vida da gente sem os "ê, seu João"?

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jorge willian em 25/06/2010

Concordo, caro Rodrigo, um filme é um produto e não deve ser mera mercadoria. É um produto que se pretende arte, apesar dos investimentos de grende soma de capital. É um produto que pode nos fazer mais críticos, apesar das ideologias que propaga. Um filme, concordo,é um produto, mas que produto !!!!



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