Diários Cinéfilos

Boa era a SET por Roberto Cunha

26/04/2010 21

Texto de Rodrigo Fernandes

Antes de qualquer coisa, é preciso assumir meu atraso perante os senhores. Ainda que escreva para este portal cheinho de bits, bytes e outras coisas das mais modernas, confesso que sou um sujeito que nunca conseguiu superar a própria parvonice, ficando preso a outras épocas e outras modas, antes supimpas, hoje cafonas. Para vocês terem uma idéia do meu atraso, basta dizer que fui ter meu primeiro PC naquele estágio da vida quando a gente é comumente conhecido pela sábia sabedoria popular como “burro velho”. Até aí meu mundo era exclusivamente feito de papel. E como ainda não haviam inventado a internet – que os religiosos mais esclarecidos ainda consideram arte do coisa-ruim, e eu concordo – tive a oportunidade de valorizar um monte de coisas inúteis e bacanas: dos gibis do Recruta Zero à célebre Realidade. Da saudosa Manchete às edições de carnaval da Fatos & Fotos. Era uma espécie de ritual, ir à banca e voltar com uma revista fresquinha. Era a maior das glórias terrenas. Bem, tá certo, vai ver, na verdade, a coisa nem era esse Sputinik todo, mas a gente vai ficando velho e só resta mesmo cantar de galo com o passado.

De cinema tinha a SET e a Cinemim. Da Video News, desgostava. Só falava de assuntos técnicos – câmeras, filtros e lentes – que eu, na mais completa e extraordinária ignorância, ignorava. A Cinemim, enorme, impressa em P&B, era deveras intelectualizada. Escomungava os filmes mais pop e mantinha diálogo com o cinema americano clássico (preciso investigar, mas parece que ela copiava descaradamente a Cahiers Du Cinéma). A capa sempre chamava atenção, mas o conteúdo era sisudo demais para o eu-menino.

Boa mesmo era a SET. A revista era cinemão, mas cinemão de classe. Suas trinta primeiras edições estão pau-a-pau com os melhores magazines gringos. Os artigos eram extensos e relevantes, assinados por críticos do calibre de Ana Maria Bahiana, Pepe Escobar, Alex Antunes, Marcel Plasse e por aí vai. Um time de craques da pesada. A análise de um único filme rendia meia dúzia de páginas, sem miséria. E havia um ecumenismo saudável. Na mesma edição convivia harmoniosamente um artigo sobre o novo “astro” Jean Claude Van Damme e uma análise sobre a simbologia oculta em Blade Runner. Sem estresse. Pode parecer incrível, mas naquela época havia mais textos do que fotos, a palavra, vejam só que coisa antiga, era importante.

Barata, barata, a SET não era, como, aliás, nenhuma revista especializada foi nesse país, mas valia a pena economizar na cantina ou no fliperama. Por muito tempo tudo que se precisava saber sobre cinema estava lá na SET. Hoje, olhando para trás percebe-se que a decadência da revista foi dramática e agonizante. O primeiro punch foi a queda do número de páginas – artimanha nada sutil ou original para se aumentar o preço. Depois, como numa sucessão de pragas egípcias, veio a debandada dos grandes autores. Por fim, invadida por aventureiros de pouco talento, SET se transformou num desfile de celebridades. Como uma sucursal da Caras, tudo se resumiu a ensaios estúpidos e a visitas aos sets com direito a fotos de repórteres posers ao lado dos astros. Podem anotar aí, futuros publishers e editores: quando um jornalista se acha tão importante quanto a matéria, a derrocada é certa. Trocando o conteúdo pela babaquice porpurinada e chafurdando feliz na lama da mediocridade, SET deixou de valer a pena.

Quando foi cancelada em 2009, eu torcia sincero, do fundo do meu coraçãozinho negro, que a revista não retornasse do mundo dos mortos e voltasse a fazer vergonha, que sobrasse ainda um tiquinho de dignidade e honra. Pois ela voltou, lançou uns números, e sumiu de novo, deixando um monte de assinantes na mão. Hoje, o futuro da publicação é incerto, diferente do seu passado. Ah, o passado... Dá até para dar um suspirinho de emoção.

Comentários

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Humberto Gonzaga Ramos em 26/04/2010

Gostei da matéria, Rodrigo. Tenho a coleção completa da SET e também acho que ela, pelo menos a partir dos anos 90, decaiu muito. Mas acho que não tinha como ser de outro jeito, afinal, quem pode competir com esse monstro chamado internet? parabéns pela matéria. Alguém percisava mesmo falar da SET.


 

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Rodrigo Fernandes em 26/04/2010

Valeu pela presença, Humbertão. Mas realmente não acho que a causa da derrocada final da SET tenha sido a internet. Mesmo com a internet tem muita revista por aí, firmes e fortes. A própria SET, que só foi cancelada ano passado, durou ainda muito tempo, mesmo com a internet a todo vapor. O problema da SET, acho eu, foi ter seguido uma linha editorial pobre em informação e mais proxima de uma revista de celebridades, com repórteres arroz-de-festa se achando mais importantes que as notícias. Frente essa ego trip os fãs mais velhos debandaram (eu incluso) e os mais novos, que realmente gostam de cinema, nem chegaram perto. Sem um site decente - que poderia ter ajudado na manutenção da revista - foi tudo por água abaixo.


Bração.

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Eduardo Loyola em 27/04/2010

"Trocando o conteúdo pela babaquice porpurinada e chafurdando feliz na lama da mediocridade, SET deixou de valer a pena". Pegou pesado... 

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Marcos Josian em 27/04/2010

 


Rodrigo Fernandes, você mandou bem, eu fui muito fã da SET  tenho muitas revistas mais nesse época que você fala não era no meu tempo eu comecei a conhece a SET nos anos 90, mais vcs grandes sábios dizem que ela  decaiu justamente nessa época, então na verdade ela era uma MARAVILHA pelo que entendi. Eu fiquei super triste por presencia o final da SET, é ela voltou e esta muuitoo longe de ser aquela velha "REVISTA SET."  Parabéns Rodrigo pela matéria.

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Rodrigo Fernandes em 28/04/2010

Pois é Marcos, a SET era mesmo uma maravilha. De fato, é muito fácil descobrir os responsáveis pela abissal queda de qualidade da revista, basta ser um pouquinho atento e mapear os editoriais. Mas deixemos os nomes pra lá por que não vale a pena chutar cachorro morto, até um cretino que nem eu (que nem nós, o somos todos), precisa ter um pouco de ética. No mais, a única revista especializada em cinema  respeitável no mercado é a "Revista de Cinema". Ainda que se atenha só ao cinema nacional e sofra com uma periodicidade claudicante, vale a pena ser lida.


 

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Sr. Ketilys em 26/05/2010

E o que voce me diz da Revista Teorema la do Rio Grande do Sul? Saem 2 edicoes por ano. E eu acho muito boa!

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Rodrigo Fernandes em 26/05/2010

Sim , sim a Teorema é muito boa, excelente mesmo. Matérias relevantes, entrevistas interessantes... Pena que por ser totalmente independente (nela nem há anúncios, uma maravilha) só sai de seis em seis meses. precisamos de uma Teorema mensal. Urgentemente.

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FLAVIO PEDRO em 28/04/2010

 Rodrigo adoro seus comentários e sempre fico torcendo pelo próximo que leio mais de uma vez.Pra dizer a verdade desde o fim da Revista Set não tenho leitura tão interessante quanto a sua coluna.


A Set era meu artigo de coleção desde 1994, eu levava 20 dias até para poder ler pois fazia isso com degustação, muitas das matérias eram até mais interessantes do que o próprio filme em questão.Por isso meus parabéns por ter falado dessa que pra mim é a melhor revista de cinema do país.


Grande abraço!

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Rodrigo Fernandes em 16/08/2010

Prezadíssimo Flávio,


Convido vossa mercê a aparecer no meu humilde blog: www.aovinagrete.blogspot.com


Bração


Rodrigo F.

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Rodrigo Fernandes em 28/04/2010

Valeu pela presença, Flávio. Eu também colecionava a SET com carinho e, como você, também ficava "poupando" a revista. Os números que comi mosca, depois consegui comprar em sebos (ainda hoje uma boa opção para os colecionadores). Vale muito a pena garimpar os primeiros números, mesmo não-atuais há ensaios bem relevantes. Os do Pepe Escobar, em particular, são terrivelmente bons.


Bração.

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daltonmarques em 28/04/2010

Rodrigo, fiquei felizaço com o post sobre a Set. Era doido pela revista desde os doze anos de idade (quando o cinema de fato deixou de ser passatempo pra mim e virou paixão incondicional). Fui leitor da revista por 10 anos (os últimos 10) e não peguei a fase de ouro, mas gostava justamente da democracia que impregavam nas matérias (misturar falação sobre cinemão sem nunca deixar de dar enfase ao cinema de arte, nacional, independente, estrangeiro e o cacete que fosse). Gostava de alguns críticos e de determinadas coisas na revista, mas no geral, amava ter a Set e colecioná-la. Era mesmo andar nas nuvens ir da banca até minha casa com a Set debaixo do braço.Valeu por me lembrar de como era bom gostar de "saber" sobre o cinema através de uma fonte sólida e enxuta (coimo já foi a Set). Agora temos a Coluna Diários Cinéfilos no Adoro Cinema. Não estamos órfãos.


Abraço, rapah!

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Rodrigo Fernandes em 28/04/2010

Grande Dalton. Posso garantir que você não é o único que tirava onda com a SET debaixo do braço. Fico pensando, como a gente precisava de pouco (pouco? será?) para ficar de bem com o mundo.


Bração, cara.

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Sr. Ketilys em 26/05/2010

E complementando esse regozijo em meio aas criticas aos ultimos tempos da revista, me lembro de certo nervosismo ao receber minha revista em casa quando haviam capas multiplas (qual eu teria a sorte de ganhar?). kkkkkkkkkkk!

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Rodrigo Fernandes em 16/08/2010

Prezado Sr.Ketilys,


Convido vossa mercê a aparecer no meu humilde blog: www.aovinagrete.blogspot.com


Bração,


Rodrigo F.

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Léo Pimentel em 28/04/2010

Ah, meu pessimismo estrutural e estruturante tocado pelo seu texto, amigo Rodrigo, me lembrou todos aqueles filmes do espírito de natal. Assim farei o mesmo. Imagine que sou um desses espíritos. O levo para o exato momento da decisão editorial em que a encruzilhada da revista SET é: a) manter o nível intelectual e não aumentar as vendas, já que emergentes nada querem com a intelectualidade ou b) igualar por baixo o nível e aumentar as vendas para emergentes com necessidade de sonhar que podem mimetizar celebridades. Daí neste exato momento lhe dou o poder de decidir, não sobre qual caminho escolher na encruzilhada, mas sobre que tipo de mídia veicular a trilha escolhida. Feita a escolha, lhe levo ao futuro. Não tão longíquo, amanhã mesmo está bom. E então você vê que tudo está do mesmo modo que antes da encruzilhada. Então lhe trago ao presente. Aí você vê que houve uma mudança apenas. Mas uma puta mudança: você se tornara um talentoso crítico de cinema em uma revista virtual. Ops! Para o filme! Tu já é esse cara! Não houve mudança alguma! Porra, não sirvo mesmo para ser nenhum espírito do natal passado... parabéns pelo seu texto.


Abraço


Léo

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Rodrigo Fernandes em 28/04/2010

Para o nosso azar, great Léo, a SET não conseguiu acertar tão elementar questão, e, entre A e B, a editoria da revista capou as duas. Bela argumentação. Fique por aí.


Bração.

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Gustavo em 24/05/2010

O prazer da mídia impressa esta com seus dias contados: pela internet, por economia do papel  para o meio ambiente e economia de script em prol das imagens como a maioria dos filmes que figuram nas capas das revistas.

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Sr. Ketilys em 26/05/2010

Rodrigo, Gustavo e Leo, 


 


Sintetizando tudo o que foi dito acima, a historia segue como tem de ser. O caminho nao eh tao simples pra se manter uma publicacao no hype, como bem nos colocou o Leo Pimentel, e nada eh para sempre como profetiza o Gustavo. A midia impressa tem seus dias contados. A SET ja se foi. A Folha esta se adaptando. E a internet esta cada vez mais presente. Sigam-na os bons! =)


 


Abraaaacos, 


 

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William em 16/08/2010

Dei uma pesquisada sobre a revista e vi q ela comecou com a editora Azul, e lembrei q a saudosa Ação Games, a melhor revista de games do país  tbm comecou com a mesma editora e mais tarde foi assumida pela Abril, que em 2000 nos deixou a  ver navios, no meu caso, no meio da assinatura, substituindo a mesma pela Superinteressante.


A desculpa era de q a revista ia passar a ser publicada apenas em edicoes especiais e q so poderia ser adquirida atraves das bancas.


Pra mim isso foi o cúmulo da falta de respeito com o assinante.

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Rodrigo Fernandes em 16/08/2010

Pois é, William... Você não foi o único a ficar a ver navios. Muitos assinantes - muitos mesmo - ficaram na mão.


Abraços;


Rodrigo F.


www.aovinagrete.blogspot.com

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Pollyanna carvalho em 06/09/2011

Poxa Rodrigo, que viagem no tempo vc me fez fazer com esta materia.....brigadissima...lembro de ter levado esta revista para todos os lugares possiveis, escola, casa da tia, na rua filosofando cinema com mesu fieis amigos que nao entendiam nada de cinema.....bjos valeu



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