Diários Cinéfilos

Mudando os ares por Roberto Cunha

26/03/2010 4

Texto de Rodrigo Fernandes

De férias no Rio – ou melhor, de bobeira, como falam os nativos daqui – resolvi fazer diferente. Abandonei o costumeiro roteiro cinéfilo e parti para um programa teatral. Enfim, a gente muda para continuar na mesma, vocês entendem, antes do cinema, o cinema era o teatro. E para não fugir muito da coisa e ficar mesmo no familiar (acreditem, não há nada mais traumatizante que teatro experimental, nada) fui assistir Amadeus, peça do consagrado Peter Shaffer, montada pelo sempre ótimo Naum Alves de Souza. Quem quiser conferir, é facílimo: Teatro Carlos Gomes, no Centro, a preços acessíveis.

Todo mundo que já foi gente um dia conhece o texto de Amadeus. Ou pela própria peça ou pelo filme do Milos Forman, aquele que ganhou uma penca de Oscares e imortalizou o Mozart de Tom Hulce. Ou melhor, a risadinha erótico-nervosa do Mozart de Tom Hulce. Não sou – deo gratias – a Bárbara Heliodora, terrível crítica carioca que espinafrou o espetáculo com requintes de crueldade. Não entendo de dramaturgia tanto assim. Apesar de ter trabalhado no meio durante uns bons anos, não aprendi nada e se aprendi esqueci tudo. Assim, peça, ou gosto ou desgosto. Preferindo ficar com a opinião para mim mesmo. Não perdendo ninguém por ficar calado.

Porém não deixa de ser interessantes as diferenças entre o Amadeus do cinema e o do teatro. O da tela grande é aquela coisa: figurinos, fotografia e trilha sonora retumbantes. Uma carpintaria agigantada, feita para esmagar o espectador na poltrona do cinema. É uma pancada e uma festa. A versão teatral propõe outra experiência. O texto – perdoem a redundância – fala bem mais alto. A grandiosidade dá lugar à criatividade e à sutileza. As luzes são cirúrgicas e o cenário minimalista. Os atores quando acertam, está na cara. Quando erram, também, já foi. Trata-se de uma profissão de risco e os esforços pela excelência não deixam de ser emocionantes. Um texto, os mesmos personagens, a mesmíssima trama e duas abordagens totalmente diferentes. Por aí a gente vê que o engenho humano é das coisas mais impressionantes que existem. Os homens, essas bestas quadradas, quando querem fazer algo do bem, fazem. O problema é querer.


*  *  *

Há coisas que realmente só acontecem na cidade maravilhosa. Outro dia fui ao cinema e me deparei com uma policial anotando os dados de quem pagava meia entrada. O negócio é o seguinte: como há milhões de carteirinhas falsificadas por aí, a fiscalização a partir de agora vai anotar o nome do estudante e contatar a instituição deste. Se ele estiver matriculado lá, bom. Se não estiver a carteira é comprovadamente falsa e o caboclo é comprovadamente um mentiroso, um estelionatário, não havendo perdão para ato tão vil, merecendo o mesmo a prisão que será, com certeza, seu merecido destino. Tendo até sorte dele não estar na China, onde, todo mundo sabe, a chapa é quente.


Francamente, acho o controle necessário. Mas numa cidade problemática como o Rio de Janeiro, onde a velocidade média do trânsito não passa de 19 quilômetros por hora e adolescentes desfilam com fuzis como se fossem atiradeiras, acho que a última das preocupações deve ser o cara que PAGA metade de um ingresso para ir ao cinema. Venhamos e convenhamos. Creio que muita gente – a maioria, com certeza – só paga meia por que só pode pagar meia. Se não, ele não vai, e todo mundo perde.

 
Ou será que a gente deve acreditar nos produtores que dizem que, com o fim das falsificações o preço do ingresso vai cair? Se for assim, por que não cai logo e se abole de uma vez a meia entrada da discórdia? Um preço mais baixo para todo mundo é até mais bonito e democrático. Taí uma dica.


*  *  *
 
Em tempo: do alto da minha extraordinária ignorância, sempre pensei que a arte (e tudo que gravita em torno da dita cuja) é que deveria se adaptar à sociedade, não o contrário. Mas com certeza devo estar errado. Não, estou errado com certeza. A arte é luxo mesmo e pouca gente merece essas coisas. Eu e você, definitivamente não. Vamos deixar de ser abusados, ora.

Comentários

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Eduardo Loyola em 01/04/2010

Cara, odeio esse negócio de puxa-saquismo, acho a coisa toda uma tremenda pobreza de espírito, mas tenho que dizer que tua escrita está cada vez melhor. A ironia dos seus textos - sempre sobre temas relevantes, mesmo que não pareçam à primeira vista - está sempre na medida. Conheço uma galera que se espelha no seu estilo. O nome disso é moral.


Sem confete ou serpentina, te considero um dos grandes críticos do país. Acompanho os profissionais do universo da opinião e com certeza vc está entre os três mais criativos.


Continue assim, cara.

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Rodrigo Fernandes em 02/04/2010

Valeu Eduardo.


Suas palavras são bem generosas. A gente faz o que pode e às vezes até acerta. É raro, mas acontece. De fato, sempre procuro fugir do óbvio nos meus ensaios. Aquele esquema de crítica tradicional não me interessa muito não. Até por que tem muita, muita gente boa seguindo essa levada mais analítica. Mas, acertando ou errando, tenho maior prazer em escrever aqui pro Adorocinema. é de coração.


Continue por aí.

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yyamamoto em 02/04/2010

"acreditem, não há nada mais traumatizante que teatro experimental, nada"


kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk


Sem dúvidas, se a mera e banal educação já é para poucos, a democratização da arte é um absurdo!

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Gustavo em 26/05/2010

O teatro oferece a oportunidade de ver o ator ali, vivo, ofegante e real, acertando ou não o show deve continuar, algo que o cinema não pode proporcionar, parece existir muita resistência do público em mudar um roteiro de R$15 pra  Premonição 50 e pagar o mesmo por uma peça decente. Concordo que a arte deve se adaptar à sociedade, mas esta parece não estar muito interessada na primeira de uma forma geral, com meia da discórdia e tudo. Mas talvez eu seja ignorante ou não saia o suficiente....



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