ex: A Origem
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Texto de Rodrigo Fernandes
Lá em casa era uma maravilha. Não que meus pais sejam lá muito liberais ou que eu e meu irmão fôssemos doidos de pintar e bordar, mas se podia fazer quase tudo sem levar puxões de orelha ou desagradáveis pitos. Na maioria das vezes os dias transcorriam na maior tranquilidade, quando muito um som alto com meu irmão achando que era o vocalista do The Smiths ou um campeonatozinho de videogame (em volta do até hoje imbatível Atari) que de vez em quando acabava numa básica e necessária violência juvenil. Nada demais, coisas que só ajudam nos desenvolvimentos. Porém, havia uma hora lá em casa que era sagrada, a hora do Jornal Nacional. Quando começava a tocar a famosa musiquinha anunciando o televisivo diário, era bom prender a respiração, porque qualquer ruído vinha acompanhado de um esporro caudaloso. Nunca levamos uma sova porque quando meu pai anunciava que era hora de ficar por dentro das notícias a gente não era besta e mantinha o respeito, ficar pianinho era uma grande malandragem. Confesso que herdei um pouco disso. Como meu pai, adoro ficar por dentro das news, e na hora que eu pego um jornal pra ler me torno um sujeito indócil a qualquer interrupção. É o jornal ou nada.
Semana passada mesmo, deixei de lado um saboroso periódico justamente porque minha sobrinha começou a me perturbar o juízo. Ela queria que eu fizesse minha famosa mágica de arrancar o braço (o meu braço, não o dela) para se mostrar às amiguinhas (ela se mostrar às amiguinhas, não eu) e tive que abandonar a salutar leitura. Com a vida corrida esqueci a coisa e só voltei a ler o diário por esses dias. Fiquei bobo com uma informação em especial, está lá, na Folha de São Paulo, para quem quiser ler: há, neste exato momento, 77 sequências de filme em andamento em Hollywood. Sequências, e nem estamos falando dos remakes. Como o jornal já tem um tempinho, esse número já deve ter subido. Em breve, num cinema perto de você Toy Story 3, Shrek Para Sempre e Como Cães e Gatos 2 um tiquinho mais pra frente, o novo Crônicas de Nárnia, o novo Piratas do Caribe e só Deus sabe o que mais. Uai, ora bolas, mas qual é o problema? Na verdade nenhum, os estúdios fazem com seus milhões o que querem e bem entendem. Mas o número é um inegável indicativo de a quantas anda a criatividade na terra do cinema.
Há hoje uma cultura se apostar só no que é lucro certo. Foi-se o tempo do cinema de autor, quando junto com o cinema-produto vinha embutida uma intenção artística. Scorsese, Coppola, Peckinpah, William Friedkin e aqui Babenco e Cacá Diegues faziam filmes inteligentes e mesmo assim recordistas de bilheteria, havia respeito com o espectador. Entendam, garotos e garotas: o problema não é o cinema comercial. O problema é o cinema só comercial. O negócio agora é abrir franquias, que nem lanchonetes fast food. Entretenimento rápido, fácil, padronizado e sem gosto. Não raro também causam indigestão. Pois é, o cinema virou um enorme Big Mac. É só pedir pelo número. É a lógica do mercado total: se um filme já deu certo (e esse certo significa grana alta nas bilheterias), pra que inventar? Pra que apostar numa ideia nova? Isso é coisa pra gente romântica. Gente ultrapassada e metida a intelectual, pessoas bestas e com certeza alguma tendência condenável. O povo quer é cinema-sanduba, aquele que no fim das contas vai parar no vaso.
O mercado exibidor também tem sua parcela de culpa no cartório. Vamos combinar. Uma coisa é a exibição de filmes comerciais, importantes porque mantém a economia cultural lubrificada, girando. Outra coisa é banir de vez os filmes que não rezam nessa cartilha. Dois filmes muito relevantes servem de exemplo da sinistricidade desse esquema: A Fita Branca e Os Homens que Não Amavam as Mulheres só foram vistos – se é que foram vistos – em pouquíssimos cinemas alternativos. Cinemas alternativos que, aliás, estão mais ameaçados de extinção que a pobre ararinha azul do Pantanal. Se o governo tem por hábito salvar bancos (e banqueiros) falidos, por que não dar uma merrequinha aos cinemas de arte também?
É bruta hipocrisia achar que esse neoliberalismo cultural – hard capitalista – é exclusividade dos gringos. O Pindorama aqui já entrou nessa ciranda do lucro certo faz tempo. O faturamento recorde de Se Eu Fosse Você 2 é exemplar. O segundo Tropa de Elite vem aí e ninguém duvida que vá ser um sucesso. Isso sem falar nos filmes da Xuxa e do Didi – essas figuras mitológicas –, tudo um infinito e intragável mais do mesmo de piadas sem graça. Tão interessantes quanto uma xícara de café frio. Confesso mesmo que ficar tocando essa mesma nota feito um guitarrista pirado em ácido é meio cansativo, muito inconveniente. Como os leitores desse site merecem coisa melhor é bom eu deixar de besteira e voltar pro meu jornal. Mas quem atrapalhar, apanha.
Gustavo em 23/06/2010
Saudações Rodrigo! Somos "chatos, arrogantes, presunçosos, deslocados e ultrapassados" não adianta, somos dinossauros idealistas, sempre condenados por confundir pra tentar esclarecer dizendo: aquilo que todo mundo tá pagando pra engolir é o que causa o cheiro do ralo, e que os números vendidos pelo palhaço nos transformam em palhaços também. Sou jovem ainda meu caro Rodrigo, mas já estou enquadrado na lista dos velhos rabugentos que não gostam de nada, que quer oprimir a opinião alheia, que não respeita o ponto de vista dos outros, que morrerá só, excluido da massa por sua massa cinzenta. Trágico porém justo fim, afinal quem mandou trocar o certo pelo duvidoso? E não adianta bater em quem não aceitar pois ele vai levar pro lado pessoal e dizer "quem você acha que é pra me dizer o que é bom ou ruim?" mas pensando bem, pelo menos você pode retrucar "sou um critico de cinema reconhecido e admirado" já funcionou? Abraço e boa leitura!
Rodrigo Fernandes em 23/06/2010
Salve Gustavo. Lendo seu comentário me lembrei de uma frase do lendário Nelson Rodrigues. Quando perguntado que conselho ele daria aos jovens, Nelsão mandou, na lata: Cresçam!
Em tempo, apareça no meu bloguinho, será bem vindo:
www.aovinagrete.blogspot.com
Cinemaalternativo333 em 25/06/2010
Infelizmente é verdade. Nós, cinéfilos somos uma raça com risco de extinção. Afinal, não deveríamos depender de filmes hollywoodianos e cariocas, mas é tudo que passa aqui. O jeito é alugar filmes antigos e assistir em casa.
Rodrigo Fernandes em 26/06/2010
Ou o teatro! Há,nesse momento, ao menos nas grandes capitais,ótimas peças em cartaz. Os preços é que não andam nada convidativos. Mas vale a pena o esforço.
jorge willian em 25/06/2010
Dá-lhe Rodrigo, Talvez seja novamente a arte imitando a vida ou a vida imitando a arte. Já tivemos Bush 1 e 2, FHC 1(1994), 2(1998) e 3 ´(início do Lula, 2003), Lula 1 e 2(2006) e teremos a Lula 3(Dilma). A vida imita a arte: tragédias ou comédias?
Rodrigo Fernandes em 26/06/2010
O grande problema é que quase sempre a continuação é pior que o original.
Luan Reis de Lima em 14/07/2010
O que terá acontecido a Rodrigo Fernandes?
Apareça e escreva Homem!
Rodrigo Fernandes em 16/07/2010
Pois é, Luan. Graças a trovejantes e inefáveis problemáticas pessoais estou mesmo afastado das colunas cinematográficas. Mas continuo escrevendo sobre outras bossas em www.aovinagrete.blogspot.com , vai lá!
Luan Reis de Lima em 17/07/2010
E não é que eu já frequento essas bandas. "Ao Vinagrete" já faz parte dos meus vícios cibernéticos.
Devaneios a parte, melhoras!
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Eu gostei! Aliás eu gostei de todos os filmes do Homem Aranha! Os efeitos ótimos como semp...
por GI123, 29/02/2012 às 02:57
Achei muito bom! A fotografia e as atuações são perfeitas, mas o que eu mais achei intere...
por GI123, 29/02/2012 às 02:45
Ryan Reynolds realmente está ótimo! Com certeza não foi um trabalho fácil, mas ele está...
por GI123, 29/02/2012 às 02:22
Esse filme até que tem um roteiro criativo(para uma situação tão restrita), mas sei lá....
por GI123, 29/02/2012 às 02:17