Diários Cinéfilos

O Lobisomem por Francisco Russo

Terror ou Terrir?
15/02/2010 5


Texto de Rodrigo Fernandes

Receita para um filme de terror: pegue um protagonista complexado, junte uma mocinha indefesa, acrescente um ator vitoriano e um policial implacável. Deixe a massa descansar, depois polvilhe efeitos especiais de primeira, a gosto, gratine uma velha e misteriosa cigana, em seguida unte a fôrma com uma reconstituição de época convincente e leve ao forno pré-aquecido por uma trilha sonora do Danny Elfman e voilá! Temos nosso filme de terror. Mas, será?

Se há algum mérito em O Lobisomem é justamente o de não cair na tentação de reinventar a roda. Até um malabarista de sinal sabe que Hollywood padece de uma crise criativa das mais crônicas, pois nada mais natural que, de vez em quando, sacar de um de seus monstros sagrados. Vivem fazendo isso e não há problema algum. Trágico é quando tentam modernizar demais o mito. Dou exemplo: quem vai levar os vampiros a sério depois dessa masturbação teen chamada Crepúsculo? O negócio pode ser lucrativo e fazer a alegria de adolescentes bobocas, mas...

Pois O Lobisomem permanece num sensato meio-termo. Usa e abusa de efeitos digitais, mas mantém a atmosfera clássica. Nada que empolgue os puristas, mas que também não vai tirar o sono dos amantes do gênero. Resumindo, o filme do diretor Joe Johnston é uma besteira, mas uma besteira bem feita, divertida até. É claro que tudo é muito óbvio. Na velha Londres – onde mais? – o irmão do protagonista, Lawrence Talbot (Benicio Del Toro, meio deslocado) é encontrado num bosque, dilacerado por algo, de volta a casa do pai (Anthony Hopkins, competente e arrastando as palavras, como sempre) ele vai ter que enfrentar muito mais do que a maldição que lhe espera. Seu próprio pai guarda segredos que vão se revelar terríveis. É claro que estou exagerando no mistério. O diretor não sabe segurar o segredo até o clímax do filme. Em cinco minutos de exibição você já sabe que Del Toro vai virar o lobisomem do título, que seu pai também é um coisa-ruim e que tudo vai terminar pelas mãos da mocinha (Emily Blunt). Os clichês vão se empilhando, como, por exemplo, o investigador de Hugo Weaving e a cigana interpretada por Geraldine Chaplin. Personagens recorrentes em qualquer filme de suspense.

Johnston ainda tenta passar algumas sutilezas, como a profissão do protagonista que encena peças shakesperianas numa alusão à relação conturbada que mantém com seu pai. O visual do filme também tem uma referência interessante e nos remete aos filmes da lendária produtora inglesa Hammer. Sendo, porém, a fonte principal, o pai de todos os filmes bacanas de lobisomem, o clássico O Lobisomem filmado em 1941 por George Waggner e com Leo Chaney Jr. no pêlo do homem-lobo. Um pouco menos de citações talvez deixasse o filme menos previsível e algo assustador. Até por que, convenhamos, susto mesmo, daqueles de fazer pular da poltrona, não há nenhum. Ao contrário, a plateia não parava de rir em várias cenas que se pretendiam... hummm... digamos... tensas e dramáticas... Para quem for assistir ao filme com um espírito desarmado e pouco crítico, O Lobisomem pode ser uma sessão ingênua e divertida. Agora, classificar o filme de “terror” não rola. Não mesmo. O gênero se aplica agora a produções como Cidade de Deus e Tropa de Elite, esses sim, autênticas fitas de terror. É onde está o verdadeiro medo. Culpa dos nossos tempos modernos.

Comentários

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Marsolli em 03/03/2010

Concordo plenamente com a critica, estava ansioso por para ver esse filme e sai muito decepcionado, o filme não prende a atenção em nenhum momento já sabemos o que vai acontecer desde as primeiras cenas, a fotografia é boa a atmosfera criada tb, mais o roteiro previsivel, personagens superficiais, acho que faltou uma pitada de Tarantino com um pouco de Francis For Copolla "Dracula"

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Rodrigo Fernandes em 03/03/2010

Pois é, O Lobisomem é uma grande prova que os efeitos especiais nào conseguem desbancar a invenção (e a sugestão).

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Eduardo Loyola em 04/03/2010

Concordo com os comentários. No fundo, no fundo é tudo uma questão de direção. O que a gente podia esperar de um cara que dirigiu Jurassic park 3? Onde estão os grandes mestres europeus quando a gente precisa deles?

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Rafael Vespasiano em 04/03/2010

Bom texto, Rodrigo! Os clássicos de terror estãos sendo reinventados e surgem aberrações como a Saga Crepúsculo (eu ri muito vendo Lua Nova). Sou mais o Drácula de Bela Lugosi e pronto. Ainda não vi o novo O Lobisomem, mas, pelo que falaste, é terrir. Viva Ivan Cardoso!

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Rodrigo Fernandes em 04/03/2010

Que bom que vc conseguiu rir vendo o Crepúsculo... eu só chorei, copiosamente... Nunca mais os vampiros serão os mesmos depois dessa baitolagem teen. Malditos adolescentes! Forca! Paredón!



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