ex: A Origem
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Texto de Rodrigo Fernandes
Quem me conhece um tiquinho que seja sabe que eu levo esse negócio de literatura muito a seriíssimo, a ponto de ser um indivíduo chato e obsessivo. Sendo minha convivência deveras difícil já que posso, facilmente e sem remorso, trocar a companhia dos brothers do coração por uma boa e solitária tarde de leitura. Já terminei um noivado por que cismei em escrever um livro e fiquei tão abilolado com a árdua e prazerosa tarefa que deixei de cumprir minhas obrigações e acabei levando um pé nas partes, com muita justiça, por sinal. Tenho meus heróis, claro. E, como também tenho juízo, Jorge Amado é um deles. Quando Jorjão passou dessa pra melhor deu no New York Times: “Morre o Pelé da literatura”. Título mais que merecido, e para atestar isso não é preciso nem ler seus livros mais famosos como Gabriela Cravo e Canela, Tieta do Agreste, Dona Flor e seus dois maridos e Tenda dos Milagres. Lendo qualquer um de seus romances menos célebres como Cacau, Suor ou Os Pastores da noite já dá pra ficar fã do cara, pra sempre. Jorge, Orixá da literatura, é poderoso. Monta na tua corcunda e não sai mais.
Como minha obra favorita do mestre é A morte e a morte de Quincas Berro D’Água, fui assistir ao filme com a boca cheia. É claro que eu sabia que ia me decepcionar. É claro que o filme não alcançaria a bacaneza do livro. É claro que literatura é literatura e cinema é cinema. É claro. Só não ficou muito claro como o diretor, bem cercado de todos os lados, foi cometer essa mancada. Tentemos, pois, dentro da nossa célebre ignorância, descobrir esse mistério.
A dificuldade de entendimento e a potencialidade da burrice vêm de fatos óbvios e cristalinos. Usando os clichês do senso comum podemos dizer que o diretor tinha todos os bons ingredientes para uma receita perfeita, que acabou desandando miseravelmente. Sérgio Machado entende de cinema e da Bahia. É dele o ótimo Cidade Baixa, ambientado no submundo baiano, como o próprio Quincas Berro D’Água. No elenco desse ninguém menos que Paulo José, Marieta Severo, Milton Gonçalves e Othon Bastos, a fina flor da dramaturgia nacional. Somado a tudo isso, um orçamento razoável para os padrões tupiniquins (seis milhões e meio de reais) garantia uma boa produção. Porém o diretor não soube juntar todos esses elementos num produto final condizente com a matéria prima que tinha em mãos. Quincas não é ruim, diverte em alguns momentos, mas a sensação que fica é a de desperdício.
Com uma história que gravita em torno de um morto que é renegado pela família “de bem” representada pela filha durona (Mariana Ximenes, apagada) e o genro banana (Vladimir Brichta, no mesmo tom), mas amado pelos marginais de Salvador, Machado tinha um universo riquíssimo a explorar. Mas o cineasta se resumiu a buscar o fácil, criando um filme de esmerado impacto visual e cheio de gags esdrúxulas em detrimento de um humor mais inteligente e afim com a obra original (que muita gente boa enxerga como uma fábula política, direita versus esquerda, essas coisas). Numa entrevista o diretor se justificou alegando que seu filme se trata de uma simples adaptação. Ora bolas, porca miséria, o problema não é esse. Não é ser uma “adaptação”, mas sim sua abordagem do material original. Ao que parece, Machado mirou na bilheteria, subestimando a inteligência do público. Uma pena.
O que salva o filme de um naufrágio é justamente seu núcleo boêmio. Começando com o próprio Quincas, que encontra em Paulo José um “interprete” na medida. Melhor ator do país (e melhor dos últimos tempos, me atrevo a dizer, ao lado do shakespeariano Paulo Autran) PJ consegue emprestar dignidade e graça ao morto que é levado por seus amigos tortos para uma última noite de farra.
Marieta Severo aparece pouco, mas é peça chave no filme. Porém, como já foi devidamente alardeado por aí, são os atores Flávio Bauraqui (Pastinha, hilário), Luís Miranda (Pé de Vento), Irandhir Santos (Cabo Martin, um achado) e Frank Menezes (Curió) que dão um show a parte. Um melhor que o outro. Num elenco pouco a vontade com o universo do filme, o grupo abraça a proposta do livro e rouba todas as cenas na mão grande. Tenho certeza que Jorge Amado aprovaria com esses loucos boêmios com louvor. Não deve haver atestado de qualidade maior.
daltonmarques em 31/05/2010
Voltando a comentar sua celébre coluna depois de dois posts de ausência das minhas pretensiosas palavras, devo antes de tudo dizer que não assisti a Quincas e não me senti impelido a fazê-lo (e olha que sou entusiasta da produção nacional de obras de cinema, cada vez mais competente e original, na minha modesta opinião). O que me chama atenção na sua crítica é o modo como aborda a questão de ser fã do autor que escreveu o material original no qual o filme foi baseado, a confissão de ser um xarope literário e o equilibrio que manteve em analisar o filme pelo que ele é, e não pela adaptação que poderia ter sido. Falou tudo quando disse que filme é filme e literatura é literatura (argumento batido, mas nunca usado com sabedoria por quem discute cinema). Salvo rarissimos seres no mundo da crítica cinematográfico espaços virtuais e publicações afora, fãs de um livro esculacham o filme baseado no mesmo pela falta de fidelidade ao material, descaracterização dos personagens e ausência de elementos outrora presentes no livro adorado. Eu fico puto quando estragam um grande livro no cinema, mas confesso que hoje não sou mais um xiita em matéria de equilibrar a idéia de que o filme sempre vai ser o filme, e que o livro é o material que o filme utilizou pra desenvolver uma história. O assunto dá pano pra manga, e concordo que deve-se respeito ao material original, mas neguinho "must undestand" que os formatos não podem ser comparados diretamente. Sei que meu ponto de vista é meio bagunçado, mas gostei dos teus dizeres por mostrar a fineza de um lord ao analisar o filme baseado num livro que gosta sabendo separar o que faz do filme o filme, independente do material que o originou. Ateh mais ver, Rodrigo!
Rodrigo Fernandes em 02/06/2010
Grande Dalton. Pois é cara, a gente não pode ser radical mesmo. É claro que na maioria esmagadora das vezes o cinema fica aquém da obra literária, mas também há raras e honrosas exceções: O Poderoso Chefão, o filme, é melhor que o livro de Mario Puzo. Assim como o sensacional Um Sonho de Liberdade foi baseado num conto menor - e chato - do Stephen King. Dá pra citar um bocado de filmes assim. Mas isso também já é um outro papo. O que vale é o bom senso, sempre. Bração!
Humberto Gonzaga Ramos em 04/06/2010
Sou um grande leitor e estidioso da obra Amadiana, e, por isso mesmo, posso dizer que nunca acertaram adaptar a literatura do mestre baiano para o cinema ou para a TV. Esse filme não fugiu da regra.
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Eu gostei! Aliás eu gostei de todos os filmes do Homem Aranha! Os efeitos ótimos como semp...
por GI123, 29/02/2012 às 02:57
Achei muito bom! A fotografia e as atuações são perfeitas, mas o que eu mais achei intere...
por GI123, 29/02/2012 às 02:45
Ryan Reynolds realmente está ótimo! Com certeza não foi um trabalho fácil, mas ele está...
por GI123, 29/02/2012 às 02:22
Esse filme até que tem um roteiro criativo(para uma situação tão restrita), mas sei lá....
por GI123, 29/02/2012 às 02:17