Diários Cinéfilos

Vício Frenético por Francisco Russo

A Morte do Cinema
12/02/2010 17

Texto de Rodrigo Fernandes

Todo crítico, por mais descolado ou experiente que seja, às vezes se mete em encrencas. Às vezes a gente encontra um filme tão fora dos padrões, tão inclassificável que fica complicado formular qualquer juízo, bom ou mau. É o caso de Vício Frenético, produção ainda em cartaz nas boas salas do ramo.

Na verdade a estranheza do longa não deve surpreender ninguém. O que esperar de um filme dirigido pelo amalucado Werner Herzog – autor de um cinema-limite difícil e absolutamente pessoal – em franca decadência e estrelado por um Nicolas Cage, idem? O DNA da coisa toda não renega o resultado final.  Remake do obscuro The Bad Lieutenant de Abel Ferrara, Vício Frenético trata da rotina do detetive Terence McDonagh (Cage, claro), que está afundado até a peruca com drogas pesadas, extorsão y otras cositas más, tudo muito sórdido. O bagulho é doido. Ao mesmo tempo em que investiga de maneira heterodoxa o assassinato de uma família de imigrantes africanos (!), o tira acaba devendo a agiotas, se mete com traficantes nervosos, salva a pele da namorada prostituta (Eva Mendes, a beleza de sempre) e durante essa jornada abissal põe pra dentro quantidades industriais de cocaína. À primeira vista, o filme é isso, uma mistura mal feita de Um Dia de Fúria e Dirty Harry. Porém, nas mãos da dupla Herzog-Cage o buraco é mais embaixo e a película ganha ares e significados inesperados.

A direção do cineasta alemão é desencontrada. Apesar de seguir uma narrativa tradicional, há cenas que parecem inúteis e fora de lugar. A sensação de vertigem (coca?) só aumenta com a inusitada aparição em big close de lagartos e crocodilos. Há situações, diálogos e personagens que beiram o ridículo (atenção em Val Kilmer, pagando o aluguel). Famoso por negar a razão e a lógica em seus projetos, Herzog dessa vez usa uma trama policial como pano de fundo para exercitar sua obsessão: a realidade pode ter tantas faces que acaba se tornando uma utopia. Em outro contexto essa mistura de um gênero tradicional com uma abordagem metafísica poderia gerar um clássico (como foi O Segredo de Brokeback Mountain), em Vício Frenético o resultado resvala na bizarrice.

Apesar do computo final ser mais barrento que profundo, não há como negar que não poderia haver guia melhor nesse expresso do delírio que Nicolas Cage. Se Herzog queria forçar as portas da realidade, Cage é perfeito. Canastrão por excelência, há muito tempo o ator vem usando da não-interpretação em seus filmes. O Sacríficio, O Vidente, Perigo em Bangkok, Presságio... Em todos esses ele passou uma rasteira na crítica “revolucionando” a maneira clássica de atuar, redigindo no processo os fundamentos da cartilha dos futuros não-atores. Nicolas Cage é tão fake, tão falso, tão canastrão que acaba se tornando uma figura única no mundo do cinema. Anotem aí, ainda vão escrever teses sobre esse cara.

Em Vício Frenético o ator está ótimo estando péssimo. Seu personagem passa o tempo todo envergado de lado (ele tem uma lesão na coluna) e apontando o dedo ameaçadoramente para quem cruza seu caminho. Uma cena já é memorável. O detetive, ensandecido, invade um asilo e aborda uma velhinha na cadeira de rodas, depois de um interrogatório barra pesada ele arranca o tubo de oxigênio da vovó e dispara implacável: “a senhora devia ter vergonha de gastar a fortuna da sua família com esses cilindros de oxigênio” e, antes de sair, com a senhora já desfalecendo sem ar “é por isso que esse país está indo para o buraco”. Insano, hilário e sensacional, sem deixar de ser uma forçação tamanho família. Forçar os limites sem ter medo do ridículo é isso aí.

Comentários

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Jhow Borgo em 13/02/2010

uashuashuash agr me deu vontade de ver esse filme ... como citado acima um filme sem medo de forçar os limites e Cage com sua "nao" atuaçao, vem surpreendendo nos ultimos tempos xD..


posso nao ser especialista em cinema, mas aposto q eh um bom filme apesar dos pesares


 


Flw pepows

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joseph em 13/02/2010

Cara, esse filme é ruim, mesmo sabendo da qualidade do Cage, não aconselho a ninguém, tem coisa melhor para ser assistida atualmente. Ex: Invictus.

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Rodrigo Fernandes em 14/02/2010

Nicolas Cage dirigido por Werner Herzog... enfim... deixo por conta e risco de cada um...

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Marcos Josian em 16/02/2010

Nossa esse filme é tão ruim assim? Bem com o nosso amigo: Rodrigo Fernandes comentou, já fico com o pé atrás. será que fale a pena ver? ultimamente o Nicolas Cage... tá com o pé frio.

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NoSS em 17/02/2010

Concordando com algumas opiniões anteriores,sequer consegui assistir ao final do filme,o peso de Cage e Mendes me fizeram assistir o que não valia a pena.E dificil descrever o que nao tem sentido,um filme confuso ...

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elinaldobz em 02/03/2010

Se vc tem filhos adolecentes eu não recomendo pois uma mente não preparada ou pré disposta pode ter vontades perigosas ao sair do cinema, as cenas de  consumo de drogas são constantes, uma das mais fortes é quando uma garota joga fumaça de crac na boca do Nicolas ou coisa parecida. O filme é mais ou menos pra quem paga meia tá de bom tamanho, caso contrario vc sai da sala meio puto.

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Rafael Vespasiano em 04/03/2010

Rodrigo, sou fã do Herzog, verei o filme quando lançar em dvd, pois já saiu de cartaz em Brasília, pode não ser o melhor dele, com certeza, mas deve ser uma boa reflexão sobre o uso e abuso das drogas, não? Parabéns!

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Rodrigo Fernandes em 04/03/2010

Rafael, meu velho. Também sou fã do transloucado Herzog. Mas acho que dessa vez o homem foi longe demais em sua proposta pulp-cerebral-contemplativa. Suspeito que Vício Frenético é um título meio biográfico...

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Elias Araújo Moura em 07/03/2010

Olha, Nicolas Cage há muito tempo deveria estar frenquentando  o Framboesa de Ouro. Estranhamente esse ano não está, mas deveria. Assisti Perigo em Bangkok e, francamente, não diria que o filme se compara a A

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Elias Araújo Moura em 07/03/2010

RECONQUISTA

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Elias Araújo Moura em 07/03/2010

mas, passa na tangência...não é de se estranhar que com a direção de um cineasta tão fanfarrão com ele, o filme seja na verdade uma obra-prima do mau gosto.

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Rodrigo Fernandes em 07/03/2010

Pois é, Elias. Outro dia, num desses programas de fofoca vi uma reportagem bem esclarecedora, dizendo que o senhor Cage botou um monte de propriedades à venda. Segundo a repórter - das mais sérias - Nicolas estaria falidaço. Chegamos aí à questão: O cara anda fazendo filmes ruins por que está falido, ou está falido por que anda fazendo filmes ruins? Qual será o segredo de Nicolas Cage?

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Elias Araújo Moura em 17/03/2010

Caro Rodrigo,


Acredito que quando as pessoas não se dão conta das enrascados em que estão se metendo, a tendência é sempre esperar o pior. No caso de Cage, os seus últimos filmes foram uma prenúncia do seu estado atual. Não fico feliz por alguém estar em desgraça, longe disso mas, não precisa ser clarividente para ver que a carreira de Cage estava em declínio. Acredito que o seu "segredo" esteja na incopetência mesmo. 

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Deieza em 30/03/2010

Ah,não seria um filme brilhante.Eu particularmente não gosto das atuações de Cage,mas neste filme ele me fez rir e rir muito,o filme é tão psicodélico que eu não acreditei no final,eu achei que estava tento uma "viagem".Mas eu recomendo,afinal o filme me fez rir,e isso é bem dificíl de acontecer comigo vendo um filme.

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Rodrigo Fernandes em 01/04/2010

Sempre achei que Nicolas Cage era uma droga mesmo. Está comprovado.

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Pedro Tostes em 05/05/2010

depois desses coments me deu vontade de ver o filme...

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apretti em 04/06/2010

Vcs estão sendo demasiadamente críticos! O filme discute a relatividade moral de uma forma muito interessante, surpreendente.


Se alguém nunca teve problemas na coluna, Cage passa a exata idéia da agonia de levar um dia ruim suportando dores desse tipo! Eva está linda e faz um personagem atraente (claro, está belíssima), e interessante. A cena do jacaré, embora meio deslocada, e das iguanas empresta a sensação de "viagem" ao tenente de uma forma interessante, surreal. O relacionamento do tenente com Big Fate tem momentos engraçadíssimos, em que Cage canta e fala como um "nigga".


Em resumo: um filme original, nada hollywoodiano, muito bom! Nota 8.



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